Diário de uma tarefeira do Quilo
Um ano átras eu fazia mais uma Campanha do Quilo, como outra qualquer. Mas não era. Naquele dia eu fazia dupla com a Jacque até o Dudu chegar e resolver pela primeira vez na vida fazer a tarefa. Então ele fez dupla com a Jacque. Logo, fui fazer com a Diana. Lembro que na época estava mesmo querendo fazer com ela, porque era a única pessoa com quem eu não havia feito ainda e eu a admiro muito.
Na São João Evangelista, deixamos as doações na entrada de um prédio e subimos num apartamento para receber outras. Ela disse que a espiritualidade olhava nossas sacolas. Achei aquilo legal; nunca havia parado para pensar naquele auxílio invisível. Conversávamos sobre nutrição, posteriormente, sobre amor. Naquele período eu passava por mais uma desilusão amorosa; dessa vez um evangélico havia balançado meu coraçãozinho. E ela me aconselhava quanto a dificuldade do desenvolvimento de um relacionamento com um irmão de crença tão diferente. A Razão já havia aceitado esse conselho há tempos, mas o coração não. Quando essa conversa terminou, estávamos no final da Mar de Espanha, onde um morador nos pediu para subir para pegar as doações. Ele nos convidou a entrar para pega-las nos fundos da casa. Quando nos demos conta, já estávamos numa parte “mocada” da casa e se tivesse mais alguém, poderia muito bem nos trancar lá. Ele procurava demoradamente as supostas coisas para nos dar em um quartinho de “Vale tudo”. Eu e a Diana trocávamos olhares naqueles minutos seculares. Novamente ele nos convidou a buscar as coisas, mas dessa vez no quarto dele. O seguimos até a sala, e quando ele foi para o quarto, fomos para o hall dizendo que esperávamos lá fora mesmo. Ele nos olhava com olhos arregalados e nos convidava a entrar incessantemente, inclusive para ajuda-lo a colocar roupas em sacolas. Nós falávamos que não precisava porque tínhamos a nossa, mas ele continuava a insistir. Depois de um bom tempo, conseguimos sair de lá. Sei que acreditei na espiritualidade maior o tempo todo. A Diana estava com muito medo. Ela nem imagina a confiança que ela mesma me inspirou desde o começo da campanha ao falar do auxílio das forças invisíveis. A situação era de perigo, mas eu estava em tarefa, confiava muito na assistência espiritual. O fato de o Dudu ter aparecido para trabalhar com a gente justo naquela vez, foi sem dúvida, uma prova das mãozinhas invisíveis. O que teria acontecido com a Diana se ela tivesse subido lá sózinha?
Depois dessa vez, só fui fazer campanha com ela há uns 3 meses. Nesse dia cheguei atrasada. Daí fui fazer trio com ela e com a Jacque que entrou num apartamento, enquanto nós continuamos tocando interfone. Até que fomos chamadas por um morador do Morro do Papagaio a receber doações de uma mercearia. Ficamos receosas, mas ele falou: “gente, não tem perigo em chegar na entradinha da favela não..”. Então fomos adentrando mesmo a ruela, que só tinha homens. Novamente eu e Diana trocamos olhares e ainda complementei: “Já viu esse filme antes?”. Não queria parecer preconceituosa. Ocorreu tudo bem, todavia, não foi uma situação tranquila.
Para completar o pacote, a Di contou que antes de eu chegar, um morador do prédio que elas estavam tocando chegou trêbado e disse que queria fazer uma doação: de amor e carinho, portanto era para a Di ir ao apartamento dele. Conclusão e regra da Campanha: as duplas devem ser de casais sempre.
Domingo passado, eu e as meninas da campanha fofocavamos sobre nossas vidas amorosas no niver do Edu. Quando a Di perguntou sobre a minha, respondi que ela nem ia querer saber, pois era só tragédia. Falei por alto o que me afligia o coração e me levou a beber muito, e posteriomente ser dopada e abusada. Falei que acreditava ter expiado. A Denise discordou porque bebi, logo, passei por algo que poderia ter evitado. Enquanto a Diana concordou comigo, por causa dos acontecidos na campanha e ainda disse que eles eram como um aviso: “Filha, fica esperta!”.
O pior é que concordo com as duas. Esse dilema dos pontos de vista sempre invade meus pensamentos. Claro que hoje estou bem melhor. Quem sabe da trama até se surpreende com a minha recuperação. Eu tenho o privilégio do esquecimento a meu favor e sou muito protegida. Contudo não posso negar que diariamente penso como poderia ter sido diferente se eu tivesse realmente assumido o compromisso de Renúncia a que me dispus na COMEBH, na palestra da Luciana, e que ainda fui relembrada na feira da Boa Nova com outra palestra dela e com o reencontro de um amigo da COMEBH, Éric. Além disso, o Dudu falava que não adiantava mudar de país sem mudar de sintonia, que eu iria continuar encontrando os mesmos problemas. Isso era mais uma coisa que a cabeça tentava por em prática, mas o coração não deixava. Enfim, basta um toque da tentação para que a invigilância arrase o que os séculos levaram para contruir.
